Desde a primeira
vez que vi as fotos da Serra do Quiriri decidi que um dia eu iria conhecer aquele lugar. Ano
passado fui ao Monte Crista, e observava os campos de altitude com uma enorme
vontade de ir pra lá. Mas meu condicionamento físico estava péssimo na época, além
de eu não ter companhia e nem um GPS para realizar esse objetivo.
Este ano, assim
que voltei da grande mochilada, comprei um GPS e decidi que partiria para os
campos de altitude, com ou sem companhia.
O feriado de
Páscoa chegou, todos os amigos que convidei deram um motivo para não ir junto.
Dia 1 - sexta
feira - 06/04/2012
Eu pretendia
acordar cedo e partir 05:00 hs. Acordei tarde, pra variar. E cheguei era quase
06hs30min na Pousada Monte Crista, em Garuva. Preenchi minha ficha de inscrição,
paguei os três reais e me despedi da minha mãe dizendo: "- Volto no domingo, se
tudo der certo!"
Então segui para
ponte pênsil para atravessar o rio e iniciar a trilha. Na metade da ponte eu
escorrego, caio, e minhas pernas ficam para fora da ponte! Por muito pouco eu não caio no rio com mochila e tudo!.
Nossa! Pensei em
voltar para o carro!
"Impossível
um trekking ser bem sucedido iniciando assim!" [eu pensei]
Nesse primeiro
trecho segui caminhando com quatro caras de Joinville, todos programadores.
A trilha estava
boa, até mesmo a saboneteira nós passamos com facilidade. Depois da clareira
nós seguimos mais devagar, um deles estava muito cansado e tínhamos
que parar constantemente. Em cada parada eu tomava água e dava uma beliscada
numa barra de cereal e na barra de chocolate. Fiz isso para que não chegasse
esgotado no platô 900, como aconteceu ano passado.
Em uma das
paradas conheci um cara de Garuva que já tinha feito a travessia Monte Crista - Pico Garuva. Eu fiquei escutando ele contar morrendo de vontade de encarar essa
travessia. Porém eu sabia que seria difícil encontrar alguém a fim de fazê-la
neste feriado, embora dois conhecidos tivessem começado a fazê-la na noite anterior.
Eu não tinha os mapas no GPS porque o cabo que comprei via internet não chegou
a tempo, portanto fazer sozinho e sem mapa seria difícil e meio perigoso.
Seguimos
caminhando até o primeiro platô, onde para a direita segue para o cume do Monte
Crista e para a esquerda para o acampamento principal. Até esse ponto levamos
5h20min. Eu estava super bem, disposto a continuar caminhando. Tirei umas fotos
com os caras de Joinville, e disse pra eles olharem a noite para as montanhas do
outro lado do vale. Eu estaria em alguma delas fazendo sinal com a lanterna.
Eles deram risada, meio incrédulos.
Me despedi deles
e segui caminhando rumo a "Cabeluda", a cachoeira próxima ao platô
900, onde todos acampam.
Até lá não foi fácil
chegar, era uma hora da tarde, o sol estava fortíssimo. Próximo ao acampamento
tem uns córregos, mas não quis pegar água ali porque havia muita gente acampada
perto. Como a grande maioria das pessoas que estavam lá não tomam os devidos cuidados em relação a contaminação do solo e da água, eu temia que a água estivesse contaminada. O que era bem provável.
Cheguei a parte
alta do acampamento e passei meio que escondido pelo acampamento dos bombeiros. Eu
tinha certeza que se olhassem eu seguindo para os campos sozinho iriam
incomodar. Passando o acampamento eu liguei o GPS e marquei o primeiro ponto.
A partir desse
local eu não encontraria mais ninguém. E eu sabia disso.
Sem pressa, fui
caminhando e admirando a região, subi um morro mais alto que havia próximo,
tinha 1100m. De lá eu consegui ver uma parte da Baía da Babitonga, o acampamento no platô 900 logo abaixo e as montanhas mais altas sentido norte.
Eu estava com
pouca água, e segui caminhando pelos campos, a procura de água e um lugar para
acampar. Marcando uma coordenada no GPS a cada 60 m em média.
Em determinado
momento, encontro no meio da trilha um couro de cobra de um metro e vinte de
comprimento. Pesquisando agora descobri que era de Jararacuçu, cobra muito
venenosa! Não gostei de ter encontrado isso no meio do caminho, em alguns
trechos eu tinha que usar as mãos para me apoiar nas pedras para subir, temia
por a mão perto de uma cobra.
O tempo foi
passando, minha cede aumentando, e eu cada vez mais cansado. Parei em um riacho
quase seco para pegar água, infelizmente eu escutava a água escorrer por baixo
das pedras, mas se quer consegui enxergá-la. Ouvir a água correr e não poder
beber é foda! Nesse momento, ouço uma criança gritando: "- ôÔô-ôÔô" -
Disse a mim mesmo, não é possível!
Então dei um
berro de volta.
A criança berrou
de novo: "- Vocês estão onde? Eu não vejo vocês!"
Eu não podia
acreditar que tinha uma criança perdida por ali. Eu já estava muito longe do
acampamento, nem se quer via mais as barracas.
Enquanto a
criança continuava gritando eu fiquei olhando para as montanhas tentando
avistá-la. Até que a vi no cume de uma montanha, pulando e brincando.
Felizmente tinha um adulto com ela.
Resolvi
continuar caminhando mais um pouco e até encontrar um pequeno vale.
Armei a barraca
a 1220m de altitude, deixei tudo organizado dentro dela, e fui para o meio de
um matagal de onde vinha o som da água batendo nas pedras.
O mato era alto,
eu estava morrendo de medo de cobra, estava cheio de bromélias, e onde tem
bromélias sempre tem cobras! Com um pouco de esforço consegui chegar ao
córrego, tomei muita água e enchi meu squeeze de 500 ml. Seria o suficiente para
eu cozinhar nessa primeira noite.
Aproveitei para
cozinhar no fim da tarde, com o sol se pondo. Fiz um prato rápido de comida
liofilizada, um risoto de arroz com frango.
Não é tudo
aquilo, mas é melhor que miojo.
Com a noite chegando apareceu a lua cheia! Visão incrível! A lua saindo de trás das
nuvens, que formaram um tapete. Havia alguns picos de montanhas atravessando
esse tapete de nuvens. Tirei algumas fotos e fiquei deitado sob uma pedra,
olhando as estrelas. O céu estava muito limpo, cheio de estrelas! Foram minutos
que parece que eu nem respirava, não escutava absolutamente nada!
Agradeci a mim
mesmo por ter me proporcionado tamanha felicidade nesse dia.
Então veio um
nevoeiro, cobriu tudo, eu não tinha mais que 5m de visibilidade. Estando só com
uma pequena lanterna, demorei a encontrar minha barraca. Quando finalmente
encontrei, pensei: "Ufa! Essa foi por pouco!".
Então fiquei
escutando música até dormir.
Dia 2 -
sábado - 07/04/2012
Depois de uma
péssima noite, levantei as 08h20min. Comi um pacote de bolachas recheadas e
tomei um achocolatado de caixinha. Desarmei a barraca, organizei tudo na
mochila de novo, e parti rumo a um cume de pedra de uma montanha que tinha rumo
ao norte. Segui marcando as coordenadas. Encontrei água no caminho, então
abasteci meu camelbak e meu squeeze. O clima pela manhã estava meio fechado. Havia
visibilidade somente em algumas partes. Segui rumo ao cume da montanha, sempre
de olho na altitude indicada no GPS. Quando eu estava quase chegando, avistei
um cano branco com uma tampa numa pedra próximo ao cume. Cara, ganhei até um
fôlego a mais! Cheguei lá em cima, abri o negócio e comecei a ler os não muitos
nomes registrados de 2009 até agora. E por último estava registrado o nome de um
cara com uma criança de 9 anos! Ou seja, a criança e o cara que eu tinha
avistado de longe no dia anterior. Assinei meu nome, coloquei o endereço do meu
blog e guardei o negócio no lugar onde estava antes.
Decidi ficar um
tempo ali curtindo o visual, eu estava a 1350m e isso me alegrava, não estava com o céu completamente limpo, mas a
paisagem era linda. Um ar fresco espantava de vez ou outra as insistentes
butucas que me perseguiam.
Eu tinha esperança
de encontrar alguém que estivesse indo para o Pico Garuva, assim eu realizaria
a travessia junto. Cheguei até a avistar bem longe dois homens caminhando na
direção norte, chamei eles, mas não responderam, apesar de terem me visto.
Aproveitei que o tempo ainda estava bom e fui até um pequeno lago logo abaixo
do cume. É um grande brejo na verdade, mas no meio há pequeno lago.
Resolvi então
voltar para o Monte Crista, mesmo sem vontade. O tempo foi fechando, a neblina
dominando tudo, até chegar num ponto que a visibilidade da trilha foi ficando
difícil. Após uns 40 min. de caminhada, fui descer um trecho mais íngreme e me
deparo com três trekkers subindo. Parei de caminhar, e quando me olharam eu
disse: "- E aí galera!"
Logo uma garota
respondeu: "- Glauco?!"
"-Sou a Regiane!"
Eu conhecia a Regi
somente pelo Facebook, e já devíamos ter nos encontrado no Crista ano passado,
o que acabou não acontecendo.
Rá! Que
coincidência! Eles tinham me convidado para fazer a travessia, porém como
subiriam uma noite antes que eu, acabei não seguindo com eles. E acabei
encontrando-os no meio da trilha!
Com a Regi estavam
a Paula (disse que lembrava de mim de algum lugar (!)) e o Renato, que eu tinha
conhecido um dia atrás no grupo "Monte Crista" do Facebook.
Convidaram-me para
seguir com eles rumo ao Pico Garuva, não pensei duas vezes.
Voltamos então
caminhando até a Pedra do Lagarto, já com o tempo muito fechado, sendo
praticamente impossível caminhar sem GPS nos metros finais. Montamos o acampamento no cume mesmo.
Fazia um pouco de frio, mas o que incomodava era mesmo a neblina, que molhava a
roupa.
Com as barracas
montadas fizemos nosso almoço, preparei pra mim apenas dois saquinhos de sopa
Vono para esquentar, e para economizar água limpei a panela com guardanapo (o
que foi importante!).
A galera estava
com mais fome e fizeram uns pratos mais completos, mas limparam a louça com
água.
O tempo foi
fechando cada vez mais, a temperatura diminuindo. Paula e Renato ficaram um
tempão rondando o local em busca de uma tal caverna. Eu não tinha disposição
para isso! haha
Fiquei boa parte
do tempo descansando na barraca.
À noite, preparei
para eu comer arroz com pedaços de filé mignon. Tudo liofilizado. Infelizmente
o mignon estava horrível, comi porque não tinha opção!
Nas barracas ao
lado, uma engraçada discussão para decidir quem buscaria água, que estava a 10 min.
de caminhada montanha abaixo, no escuro, correndo o sério risco de se perder
naquela penumbra. Eu fiquei aguardando para ver no que dava. hahaha
Sabendo do
incômodo imenso que seria alguém descer para pegar água eu dei a eles o que
restava da minha, que não era mais que 700 ml. Antes claro dei uns bons goles.
Tem coisas que em
determinados lugares vale outro, e naquele momento minha água valia. Depois de
todos terem jantado, batemos papo por um bom tempo. A Paula que estava mais
quieta, porque não levou isolante térmico e estava com muito frio.
Tenho certeza que
todos dormiram torcendo para que o dia seguinte nascesse ensolarado.
Dia 3 - domingo
- 08/04/2012
Se não bastasse a
bagunça que fiz na barraca me rolando de um lado para outro tentando ficar em
cima do isolante térmico, acordo morrendo de sede e com o isolante em cima de mim. Puta que pariu, eu nunca
acordo para nada! Creio que foi o maldito mignon que deve ter causado essa
sede. Como eu não tinha mais água, resolvi beber o que seria para meu café da
manhã. Meu último achocolatado de caixinha. Bebi devagar desejando que não
acabasse mais. Sabia que no dia seguinte faria falta. Em determinado momento da
noite a Paula perguntou se eu estava sonhando! Caramba, eu devia estar
resmungando muito para acordar os outros com aquele vento ininterrupto!
Era 06h30min,
quando a Paula chamou a Regi, logo imaginei o que era. Tínhamos a visita do sol! Que maravilha! A paisagem
estava incrível! Os campos todos amarelados brilhando umedecidos. Resolvi logo desmontar meu acampamento. A galera
ficou ainda curtindo o visual. Tiramos várias fotos.
Meu café da manhã
foi uma barra de cereal, e um sache de carboidrato em gel. Eu tinha um miojo
ainda para cozinhar, mas teria que descer para lavar a panela, pegar água,
acender o fogareiro... etc.
Miojo já é ruim no
almoço, no café da manhã é impensável!
Longe no horizonte
víamos nuvens, ainda otimistas saímos para a caminhada final era mais ou menos 09h30min.
Paramos no laguinho logo abaixo ao cume, e pegamos água. As butucas estavam
insuportáveis, chegava a ficar preta a calça de tantas que estavam pousadas! (se exagero algum)
Seguimos
caminhando com tranqüilidade pelo campos semi-planos do Quiriri. O problema
começou próximo ao Pico Garuva. Quando chegamos a sua base, a neblina começou a
dominar o vale. À medida que fomos subindo ela foi ficando mais intensa. Com muito
esforço chegamos ao cume do Pico Garuva 1286m marcava no GPS. Ficamos um tempo
lá em cima, esperando que abrisse uma janela. Mas não rolou, então descemos até
um platô entre o P. Garuva e o Jurema. E quem disse que achávamos a trilha?!
Sobe e desce, anda para um lado e para outro e nada! Renato que já esteve no
local deixou a mochila e procurou até encontrar! Foram 30 minutos perdidos!
A trilha a partir
dali seria de descida, pela mata fechada. E muito fechada! Parecia que fazia muito
tempo que alguém não tinha passado por ali. Quando chegamos a 1000m de
altitude, no acampamento que dá vista para o Garuva e o Jurema, começou a
trovoada.
Começamos a
caminhar mais rápido, mas o desnível da trilha é elevado, há diversos lugares
onde é necessário escalaminhar. Os tombos e escorregões foram ficando cada vez
mais freqüentes. Meus joelhos estavam destruídos! Com a roupa e a mochila
molhada o peso aumentou significativamente e só piorou a situação. A partir
desse momento eu não olhei mais para o GPS. Seguimos mais algumas horas
descendo a montanha nessa situação. Todos cansados, com fome e encharcados!
Quando finalmente
chegamos a um vilarejo, já era quase 15h00min! Apareceu então uma caminhoneta
F-1000. Um olhou para o outro com cara de "eu quero carona".
Eu não perco uma
oportunidade dessas, fui logo comprimento o senhor que dirigia ela e pedi
quanto cobraria para levar nós quatro até a pousada Monte Crista. Ele muito
simpático e humilde, disse que por DEZ REAIS nos levaria. Estávamos sujos e molhados!
Sem dar tempo para
ele mudar de idéia, jogamos as mochilas na carroceria da caminhoneta
entramos os quatro na cabine. Com o Sr. Valdir éramos em 5 na cabine!
Às três horas em
ponto chegamos à BR-101. Dez minutos depois chegamos ao estacionamento da
Pousada Monte Crista. Cada um deu uns trocados para o Sr. Valdir, que
ainda não acreditava o trajeto que tínhamos feito caminhando. Ele disse que
mesmo tendo sido caçador por muitos anos, nunca tinha caminhado por todos
aqueles lugares que passamos. São poucos, mas ainda há brasileiros bons como
este cara!
Enquanto depositávamos nossas
tralhas encharcadas ao lado do posto de controle, vejo meu pai no
estacionamento. Despedi-me da galera e segui pra casa com a maior vontade do
mundo de tomar um banho quente e comer um enorme prato de comida!
Enfim, mais um sonho
realizado!
__________
Obs.: Por mais que
pareça uma aventura sem grandes perigos, a maioria que lê relatos como esse considera
a coragem como um dos fatores mais importantes. Importante lembrar que é preciso saber avaliar os
riscos que estarão submetidos, é preciso equipamentos técnicos, é preciso saber
se orientar em locais remotos e acima tudo, saber superar os perrengues com
bom humor!
Valeu a companhia
de todos os parceiros dessa travessia, especialmente a Regiane Richartz, a
Paula Medeiros e ao Renato Torres Pereira! Que grupo formamos, não?!