sábado, 26 de maio de 2012

16º Dia - Cusco / Arequipa

Levantei da cama com o nascer do sol. Com a mochila pronta, não precisei perder tempo e resolvi partir logo, paguei o rapaz da recepção e segui rumo a Plaza de Armas. Peguei o primeiro táxi que encontrei, e pedi para me levar até a rodoviária. Cheguei lá e logo embarquei rumo a Arequipa. Viagem longa, previa 8 a 9 hrs na estrada. Durante o trajeto nada de paisagens especiais. Era semidesértico. O ônibus parou em Juliaca, uma cidade extremamente feia e pobre. Nessa cidade foi o recorde de menor valor pago por um almoço. Num restaurante nojento dentro da própria rodoviária, paguei $5,0 soles por um PF. Veio entrada (sopa de algum grão de cultivo local), o prato principal (trutas fritas com arroz, batatas e salada) e ainda um Inka Cola. A comida era muito boa! Após uma hora e meia em Juliaca, peguei outro ônibus com destino a Arequipa. Logo após sair de Juliaca, começou a chover. Ao meu lado estava sentada uma gordíssima chola. Com suas roupas indígenas e cara fechada, viajava acompanhada de seu filho. Um garoto quieto de aproximadamente uns cinco anos de idade. Como todo ônibus na região, as mães não pagavam poltronas para os filhos. Ele ficava deitado entre o colo dela/meu. Eu estava esmagado literalmente.
Por la carretera
Ao abrir meu diário para fazer as anotações dos últimos acontecimentos, ela pediu de onde eu era. Respondi em espanhol a ela retrucando de onde ela achava que eu era. Respondeu Europa. Disse então que era um brasileño viajando sozinho. Achou interessante. Conversa seguiu. Ela era mãe de quatro filhos. Um Engenheiro de Minas, uma filha formada em Enfermagem e terminando o curso de Medicina, o terceiro Estudante de Engenharia de TI, e o caçula que viajava com ela e por enquanto só jogava futebol. Antes de pegar no sono, disse a ela e ao menino que eu tinha um presente para dar a ela quando chegasse a Arequipa, por ele ter se comportado durante a viagem. Eu tinha uns carrinhos da HotWheels que comprei para distribuir para as crianças durante a viagem. Mas quando chegamos na Rodoviária, ela saiu do ônibus com a criança e sumiu. Não sei se ela achou estranho eu oferecer um presente ou o quê. Enfim, ele ficou sem o carrinho.
"Trucha con arroz y ensalada" - solo 5 soles
Em Arequipa o ônibus parou na rodoviária as 22:00 hrs. Estava chovendo, fazia um pouco de frio. Anotado em meu roteiro eu tinha o nome e endereço de dois hostel. Fui para a rua debaixo de chuva tentar pegar um táxi. Havia muita gente chegando a AQP e estava difícil a luta por um taxista. Todos os que consegui parar, não queriam me levar para o centro, diziam que era muito longe. Eu, já nervoso com a situação que estava se tornando rotineira - ficar na chuva à noite atrás de um lugar para dormir - segui caminhando pelas ruas ao redor da rodoviária. Tudo que eu encontrava de hotel e hostel estava lotado. Fiz as contas e constatei que já tinha passado em 13 locais e todos estavam lotados. Ao chegar em um prédio que já teve dias melhores, um rapaz de uns 15 anos estava na recepção. Pedi se tinha vaga. Ele atento ao jogo e ao msn, disse que sim. Pedi preço. Ele disse que não sabia. Pedi se podia me alojar por alguns poucos soles. Como ele não sabia o valor, então chutou $10,00 soles. Falou então para subir até a cobertura do prédio, e que a acomodação era um puxadinho com 8 camas muito simples. Eu não tinha escolha. Subi os 4 andares e cheguei à cobertura.
Triciclo táxi da região
O Prédio era uma favela vertical, sujo, feio e velho. Abri a porta do "puxadinho" e me deparei com mais três hóspedes. Dei boa noite. Ninguém respondeu. Como havia infiltração, o chão estava coberto por uma lâmina d'água de 2 cm. Não havia armário para colocar a mochila. Pensei um pouco, e resolvi colocar a mochila entre eu e a parede. Sentei na cama, tirei a bota e cuidando para não molhar os pés, coloquei as pernas na cama. Eu achei aqueles sujeitos com cara de bandidos. Eram suspeitos. Não conversavam entre si. Não falavam nada, nem boa noite me deram ao chegar. Não era comum encontrar pessoas como aqueles homens em hostel. Também não pareciam ter bagagens, talvez fossem mendigos.
Cidade faroeste Peruana - Juliaca
Com medo de roubarem minhas botas, amarrei-as na cabeceira da cama, ao lado da parede. Tinha uma TV ligada no quarto, a luz estava acesa. O cara do meu lado tentava de qualquer forma fazer um aparelhinho de rádio funcionar. Mesmo fazendo aquele barulho todo por não encontrar estação, ele continuava tentando. Sem se importar se alguém queria dormir. Dormi com medo e vontade de ir embora do Peru.

Gastos do dia:
Passagem de ônibus Cusco - Arequipa: $50,00 soles
Almoço: $5,00 soles - foi o recorde!
Hostel: $10,00 soles - foi o recorde!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Dia 15 - Quinto dia do Trekking Salkantay [Machu Picchu!]




 Acordaram-me as 04:00 hs. Eu tentava entender onde estava e o que estava acontecendo. Glen e Romain insistiam para eu levantar e arrumar a mochila. Era hora de partir rumo ao objetivo final do trekking, Machu Picchu! Levantei ainda cambaleando, estava completamente bêbado ainda. Sem conseguir nem ver direito - afinal, tudo girava alucinadamente na minha concepção - joguei tudo que tava espalhado sobre a cama dentro da mochila, peguei a sacolinha com a água e os snacks, meu mochilão e desci para a recepção do albergue. Parte do grupo do trekking subiria de Águas Calientes a Machu Picchu de ônibus. Como o valor era um absurdo, eu tinha decidiu ir caminhando, subindo as escadarias até M.P. Então eu, Romain, Glen e Dina partimos as 04:00 hs rumo às escadarias. Estava escuro e um pouco frio. Eles aparentemente caminhavam muito rápido, eu seguia atrás tentando acompanhá-los. Quando cheguei às escadarias eu já estava sem fôlego, não sei se realmente caminhavam rápido ou eu ainda estava muito bêbado. Acho que os primeiros dez minutos subindo a escada de pedra totalmente irregular, eu ainda consegui caminhar com eles. Vi que não iria agüentar naquela velocidade e disse para continuarem sem mim. Eu iria seguir caminhando no meu tempo. Em meia hora a única garrafa de água de 500 ml que eu tinha levado para passar o dia inteiro acabou. Com uma ressaca feroz, eu salivava pensando em água. Começaram então a me ultrapassar outros mochileiros. Viam que eu estava exausto, e pediam se eu estava passando mau. Eu era honesto e dizia a verdade, eram os efeitos causados pelo porre de Pisco da noite passada. O pessoal ria, me ultrapassavam e continuavam a caminhada. Houve momentos em que fiquei realmente mau. Comi tudo que tinha de lanche naquela sacola. A sede era absurda. Vomitei algumas vezes.

Cada vez mais mochileiros me ultrapassavam. Alguns ficavam realmente surpresos e perguntavam: - Como pôde encher a cara na noite anterior, você não sabia que teria que subir 2500 degraus hoje? Eu respondia com um sorriso amarelo: - Sim, eu sabia mas queria comemorar! Eu praticamente subia de quatro aqueles malditos degraus. Machu Picchu nunca me pareceu tão distante como naquele momento. De repente, após mais um lance de escadas, encontro uma multidão. Sem entender direito muitos aplaudem e gritam algo como: -Você conseguiu! É isso aí Machu Pisco! Eu não queria acreditar, tinha chego à entrada da Cidade Inca! Mirian rapidamente me pegou pelos braços e mandou-me passar pela cancela. Queria que eu entrasse logo na cidade para encontrá-la livre dos turistas. Passei pela cancela sem encontrar o restante do meu grupo, Mirian tava guiando para uns turistas e me levou com eles até o local de onde se tira a foto clássica de Machu Picchu. Eu não sabia se ria ou se chorava. Eu estava num estado de euforia e cansaço como nunca antes. Fiz um vídeo comemorando a chegada, ainda visivelmente bêbado. Pedi a um gringo com chapéu de cowboy tirar uma foto minha, a foto clássica de M.P. e o Huayna Picchu ao fundo.



Depois de fotografado, avistei aquele grupo de brasileiras que tinha conhecido no hostel em La Paz. Berrei chamando-as, elas não me reconheceram, porque em La Paz eu sempre estava com a toca Inca, e em M.P. estava sem. [Escrevendo este relato estou suando ao lembrar dessas cenas!] Seguimos então com a Mirian para receber as explicações sobre Machu Picchu. Reunimos o grupo a andamos pela cidade de pedra. Mirian explicou de uma maneira bem resumida, mas eficiente como viviam os Incas e como a cidade era administrada.  Lá pelas 09:30 hs, Mirian encerrou seu papel de guia. Tiramos uma foto do grupo reunido, juntamos uma gorjeta para ela. Dei 4 dólares. Estávamos livres para caminhar por Machu Picchu sozinhos. Passeamos pelos diversos setores da cidade. Pedras perfeitamente encaixadas deixam qualquer um impressionado. A divisão dos cômodos, e estrutura para o segundo piso. As salas onde qualquer som é multiplicado umas dez vezes. Caminhando pela cidade de pedra temos a vontade de vê-la em funcionamento, como deveria ser a uns 200 anos atrás. É incrível ver e evolução que passou esse povo. Surgindo com os Tiwanacotas, que lapidavam relativamente bem as pedras, passando pelos Quecchuas, e finalmente os Incas. Esses que foram os mais avançados indígenas da América do Sul.

Machu Picchu é dividida em setores, tem o setor agrícola, dos criados, e a parte nobre, dos mandantes. Havia escolas femininas e masculinas. Sistema de irrigação que funciona ainda nos dias de hoje. Enfim, uma complexa cidade de mais de 500 anos. E me diz, para quê que eles deveriam ter escrita? Se funcionava tudo tão bem sem ela?! Essa, é considerada umas das grandes vantagens da colonização espanhola do ponto de vista dos peruanos. Para eu continua sendo uma grande besteira. Depois de muito caminhar e registrar em fotografias o lugar, resolvemos subir o Huayna Picchu. Huayna Picchu para quem não sabe é aquela montanha ao fundo de Machu Picchu. Para subir tem que comprar um bilhete especial, pois o número de visitantes é restrito. Sentado em frente à portaria esperando para subir o Huayna, muitos turistas passavam e perguntavam: "- Como estás Machu Pisco?!" Eu tinha ficado conhecido pela façanha de subir aquelas escadas cambaleando.
Conversando com um mexicano, disse como tinha sido os últimos 4 dias, e a besteira do porre da noite anterior. Pedi a ele se ele tinha comprado a garrafa de água que tinha pego na mochila, em M.P. Ele disse que não havia para vender ali. Vendo eu naquele estado, ofereceu a garrafa pra mim. Tomei uns goles e quando fui devolver, ele não aceitou, disse que era minha. Eu não sabia como agradecer. Essa garrafinha de água foi um belo presente naquele momento. Liberada a entrada, segui sozinho. A subida do Huayna Picchu é bastante íngreme, escadarias com degraus muito estreitos e altos. Há um local onde é necessário usar corda fixa para subir, usando-a como corrimão. Se tiver medo de subir nem vá, porque a descida sim que dá medo. Mas bem, continuando. No caminho há umas ruínas, assim como no cume. É um lugar bonito, nesse momento até mais tranqüilo que Machu Picchu, que se torna um pandemônio a partir das 10:00 hs. Fiquei um bom tempo sobre umas pedras ponte agudas no cume. Havia umas 30 pessoas lá. Andando de pedra em pedra com um precipício logo abaixo de nossos pés. Eu queria ter visto M.P. de lá antes da chegada dos turistas convencionais. A visão do cume é gratificante.

Montanhas bonitas em volta, um profundo vale com o rio Urubamba bombando e mostrando sua força impressionante. Eu estava impressionado como o clima tinha mudado naquele dia. Chovia a dias na região, e na data que subi à M.P. o dia estava lindo, sol, um ar úmido e refrescante da densa floresta. Ao iniciar a descida percebi o quanto íngreme eram as escadas. Eu estava com fome e cansado. Minhas pernas tremiam. Definitivamente é o último lugar que você deve ir de ressaca. Se tinha alguém com potencial para cair daquele lugar, era eu! Controlando o medo fui descendo devagar. Onde não havia nada para se segurar, sentia minhas mãos molhadas de suor não aderindo às pedras. Começou a ventar um pouco, e nuvens a passar. Desci o mais rápido que pude, porque se chovesse e eu estivesse lá em cima, eu literalmente estaria na merda.


Cheguei à portaria do Huayna e encontrei Romain.
Decidimos voltar para Águas Calientes, M.P. estava abarrotada de turistas. Daqueles mais filho puta possíveis. Esbarram em você o tempo todo, gritam para tirar fotos, crianças chorando incessantemente, enfim, um colorido terrível onde deveria ser somente verde da mata e do gramado, com o cinza das pedras. Começou a chover, e Romain e eu saímos de Machu Picchu. Eu temia o reencontro com as escadas. E agora, em meu estado normal, vi a loucura que tinha feito. Foi extremamente extenuante a descida. Minhas pernas tremiam já não mais suportando meu peso. Eu tinha fome e sede, meu joelho doía. Romain descia com mais facilidade, e eu seguindo-o com as pernas bambas escadarias abaixo. Levamos uma hora e pouco para chegar a Águas Calientes. Paramos numa quitanda para beber uma Inka Cola. Eu estava completamente esgotado. De repente, depois de alguns minutos sem nenhum de nós dizer nada, olho para Romain e digo: "- Romain, completamos o trekking!".
Ele sorri e comemoramos. Somente eu, Glen, Dina e Romain fizemos o trekking inteiro sem usar cavalos ou outro meio de transporte. Até mesmo a Mirian - nossa guia - pegou uma carona no primeiro dia do trekking. Ou seja, somente nós quatro, de um grupo de 12 pessoas, caminhamos todo o percurso de 5 dias. Uma coisa que Romain disse e tenho que colocar aqui: "Como é triste voltar a civilização atual, e perceber que retrocedemos. Em M.P. era tudo tão organizado, bem feito, planejado. Olha onde estamos, olha que inferno de cidade!". Ele tinha total razão, Águas Calientes é feia, extremamente turística, casas empilhadas uma em cima de outra. Não se compara nossas cidades com a perfeição de Machu Picchu. Depois de um pequeno descanso nessa quitanda, seguimos para o hostel. Lá estava o restante do grupo. Conversamos sobre a experiência única de pisar em Machu Picchu. O pessoal já tinha pegado o ticket do trem para voltar para Ollantaytambo. Faltava somente eu e Romain pegarmos os nossos. Fomos almoçar no mercado público e depois até o restaurante, onde nossa agência deixa os tickets. O meu e do Romain não estavam. Pediram para nós pegar as 17:00 hs.
Voltamos no horário combinado, e para minha surpresa, só tinha o ticket do Romain e de mais um cara. O meu não estava lá. Fiquei puto, peguei o telefone da agência (Mollepata) em que eu tinha comprado o pacote do trekking e falei com o cara, exigindo que ele disponibilizasse meu ticket, pois logo mais o trem partia e eu não tinha mais grana. Ele falou para ir a outro restaurante ver se estava lá. Fiz isso, acompanhado de Romain. Nesse outro restaurante também não estava. Liguei novamente para agência. O cara desligou na minha cara. Liguei então no celular dele, ele estupidamente disse que eu deveria então pegar o ticket que estava com o nome de outro cara. Xinguei o filha da puta até ele desligar na minha cara. Voltei ao restaurante, e peguei o ticket que não estava com meu nome. Segui até o hostel correndo, peguei minha mochila e junto com o restante da galera fomos para a estação de trem. Na estação entreguei minha identidade e pedi para a garota checar se havia reserva no meu nome. Não havia nada! Eu estava suando frio, morrendo de medo dos guardas pedirem a identidade para conferir com o ticket. Pela primeira portaria consegui passar. Lá dentro encontrei as meninas de BH. Elas pediram o porquê de eu estar com aquela expressão. Contei o acontecido.

Elas falaram que para vir de Ollantaytambo para A.C. Os guardas pediram o passaporte delas. Óbvio que fiquei ainda mais nervoso. Deu o sinal para embarcar. O ticket de todo mundo informava que não iriam no mesmo vagão que eu. Olhei meu vagão, respirei fundo e fui rumo à porta. Mostrei meu ticket me contorcendo reclamando do peso da mochila, na tentativa de fazer o guarda esquecer-se da sua missão de conferir o ticket com o documento. Ele liberou minha entrada sem conferir.
Olhei minha poltrona, estava vazia. Sentei e fiquei na agonia de aparecer na porta, o verdadeiro dono do ticket berrando com o dedo apontado para mim. Cada vez que entrava alguém no vagão, eu respirava fundo e abaixava a cabeça. Umas das piores situações. Eu me via sendo posto para fora do vagão como um mendigo. Finalmente o vagão começou a andar. Relaxei meu corpo. Tinha conseguido! Só foi o trem sair da estação e eu ser servido com a comida e o café, que peguei no sono! Só acordei quando o trem parou na estação em Ollantaytambo. Reencontrei meus companheiros de trekking, comemoraram minha chegada! Procurando a van que deveríamos pegar - reservadas também pela agência - encontro o cara com a placa com os nomes do pessoal. Em vez do meu nome nela, estava também o nome do cara que eu havia roubado o ticket - Erick Hammand. Sem pensar duas vezes, no momento da chamada, respondi um "eu" quando o cara citou o nome. Pegamos o micro-ônibus rumo a Cuzco. Dormi no micro-ônibus e só acordei em Cuzco.
Fazia frio, estava chovendo. Eu tinha decidido a ficar n hostel com a galera do trekking. Porém tinha antes que pegar minhas coisas na casa da família que havia me hospedado. Despedi-me deles com um simples até logo, afinal, em minutos nos reencontraríamos e comemoraríamos o longo dia bebendo cerveja. Segui para a casa da dona Glódis. Ela ficou surpresa ao me reencontrar. Estava preocupada que eu não voltava mais, preocupada principalmente por ter partido doente. Peguei minhas coisas, me despedi dela e de sua família, e segui debaixo de chuva a procura do hostel EcoPackers. Quando encontrei, a decepção, estava lotado. Pedi ao atendente se tinha passado um loiro com uma baixinha, que seria o Glen e a Dina. Ela confirmou. Segui pela segunda vez caminhando por Cuzco a procura de um abrigo para dormir. Não queria voltar à pensão da família e pagar o valor alto que ela cobrava. Segui caminhando pela cidade a procura de uma vaga em hostel. Até encontrar um casal numa rua escura e sem movimento. Não queriam parar para falar comigo. Quando perceberam que eu era um mochileiro a procura de abrigo, conversaram comigo. Falaram que eu estava procurando no lugar errado, que aquela era uma região perigosa, principalmente aquele horário.
Por sorte, caminhei umas 4 quadras e encontrei um nojento albergue com vaga, já era meia noite. Paguei $25,00 soles por um quarto privado. O banheiro era terrível. Tomei um banho de três minutos. Desfiz minha mochila, espalhando tudo em cima da cama. Separando as coisas sujas e molhadas do que ainda era possível usar. Organizei a mochila, deixando-a pronta para partir cedo no dia seguinte.
Tinha chego ao fim este que foi um dia longo e cheio e emoções!








sábado, 28 de abril de 2012

Dia 14 - Quarto dia do trekking Salkantay [Santa Teresa - Águas Calientes]


Urubamba classe 5

Acordamos mais tarde nesse dia, por volta das 06:00 hs. Tomamos café da manhã e a pedido da Mirian juntamos uma propina para os cozinheiros, que a partir desse dia, não iriam mais nos acompanhar. A galera toda já estava com pouca grana, cada um deu algumas moedas. Na real rendeu menos dinheiro que a Mirian esperava, ela pareceu não gostar quando viu o montante! rs.
Os cozinheiros já haviam preparado nosso almoço também, que estava num recipiente de isopor, cada um teria que levar em sua mochila. E nossas mochilas nós mesmo carregaríamos nesse dia.
Começamos a caminhada as 07:00 hs. Fazia bastante calor, a região onde estávamos não era em grandes altitudes e era muito úmida. Seguimos caminhando pela estrada que dá acesso a hidrelétrica próxima de Machu Picchu. Eu estava um pouco cansado nesse dia, e levar a mochila com aquele calor foi bastante desgastante.
Em um determinado lugar vimos um paredão de rochas e um volume de água enorme saindo de dentro da rocha, algo meio surreal. Mirian explicou que não era natural, fazia parte de alguma forma da hidrelétrica (!). Ao pegar a câmera para tirar uma foto, a decepção. O visor estava todo embaçado, e ao tentar ligar ela travava.

Tirei o cartão de memória para ver se ela iniciaria. Nada! Desanimei na hora! No dia seguinte eu chegaria a Machu Picchu, e de forma alguma queria mostrar para todo mundo fotos tiradas pelos meus companheiros de trekking. Óbvio, eu queria as minhas fotos!
Fiquei um bom tempo tentando fazer a câmera funcionar, nada adiantava.

Comecei a fazer as contas de quanto eu provavelmente ainda tinha de grana. Eu ainda pretendia ir ao Salar de Uyuni, e sem câmera eu nem iria. Enfim, eu fiquei muito frustrado. Resolvi então pendurar a câmera na mochila, para que ficasse exposta ao sol e assim resolvesse um pouco o problema de umidade. Próximo de chegar à hidrelétrica a tirei da mochila e tentei ligar novamente, finalmente, deu certo!
Foi um alívio ver minha câmera ligando novamente e saber que não tinha perdido as fotos. 
Ao chegar à hidrelétrica, tínhamos que fazer uma documentação oficializando a entrada. Quem disse que eu encontrava meus documentos?! Eu não podia acreditar. Preocupado comecei a revirar toda a mochila, tirando tudo de dentro, até que de algum bolso minha identidade caiu no chão. Menos mal. Seguimos andando pelos trilhos de trem, logo depois da hidrelétrica, paramos para ver uma parte de Machu Picchu! Que ainda muito longe, a uns 1000 m verticais de onde estávamos. O tempo estava ficando estranho, já havia muitas nuvens, e o calor permanecia. Não levou nem meia hora para começar a chover. Como estava calor eu não podia colocar meu anorak impermeável. Meu corta vento não suportava muita chuva que já encharcava. Resolvi então proteger a cabeça e a mochila com a própria capa de chuva da mochila.

Ao chegar a uma barraca no meio do nada, onde uma senhora vendia água e doces, parei junto com Romain e Glen para descansar e esperar o restante do pessoal. Quando todos chegaram, Mirian disse que deveríamos almoçar ali. Então todo mundo pegou o almoço preparado pela manhã por nossos ex-cozinheiros. Eu estava bastante cansado e com fome. Ao abrir a bandeja de isopor, vejo que eu não tinha talheres. Todos tinham talheres e sem perder tempo começaram a comer. Eu fiquei furioso! Estava com muita fome, e de modo algum iria comer com as mãos a comida. Num impulso guardei a comida de volta na mochila e disse ao grupo seguiria sozinho até Águas Calientes. Com chuva, cansado e com fome segui caminhando sozinho. Creio que o pessoal não entendeu minha partida.
Acho que uns 45 min depois encontrei um cachorro no caminho, a princípio ele seguiu me acompanhando sem incomodar. Até que começou a pular contra minha mochila tentando pegar a cordinha que ajusta o tamanho da capa da mochila. Uma hora ele pegou a cordinha e puxou a capa. Fiquei furioso e saí feito um louco atacando pedras nele até não mais velo. 
Enquanto eu seguia caminhando, encontrei encontrei três caras voltando de Águas Calientes, pouco depois encontrei algumas das lindas argentinas que eu tinha conhecido em Puno, ao fazer o passeio para as Islas Flotantes. Elas me reconheceram, mesmo, eu tendo trocado a pele no rosto! Haha. Não sei quanto tempo depois do almoço (que não existiu), cheguei finalmente a Águas Calientes. Exausto, com dores nos pés e com fome. Resolvi sentar num banco de frente para o amedrontador rio Urubamba. Fiquei lá, observando sua força, algo realmente impressionante. Acabei cochilando sentado na chuva! Ao acordar, segui caminhando um pouco pela cidade até encontrar uma marquise para me proteger da chuva. Não demorou muito e veio meu grupo de trekking, Mirian nos conduziu para um hostel. A primeira coisa que fizemos foi cada um tomar um banho! Ah como um banho revitaliza! 
Pisco, pisco e pisco!

Assim que ficamos prontos, saímos para comer. Almoçamos no Mercado Público, que segue aquele padrão nojento de higiene. Mas a comida era boa, comi bife a milanesa. Custou $ 7,00 soles e veio com um fio de cabelo. 
Passeando pela cidade, encontramos Mitch e Mar. Eles não fizeram este dia de trekking porque tinham um vôo marcado para o dia seguinte. Então se adiantaram e já tinham visitado Machu Picchu.
Aproveitando a companhia deles, fomos a um restaurante para um happy hour. Tomamos várias cervejas que desceram feito água! Eu já estava rindo a toa. Na hora de pagar, um grande rolo! O garçom queria cobrar %20 de gorjeta. Nós não aceitamos. Chamamos a gerência, e ela disse que deveríamos mesmo pagar 20%. Então a discussão começou! Vimos passar na frente do restaurante uma policial de turismo e fomos atrás dela. Explicamos a situação e ela nos disse que tínhamos o direito de pagar 10% e não a obrigação de pagar vinte porcento. Até a policial discutiu com a gerente. Foi um grande stress! Por fim pagamos 10% de gorjeta e partimos.
Voltando para o hostel, encontramos os argentinos que tinham feito o trekking conosco (eles eram de outro grupo). Falaram que queriam beber Pisco, e pediram se nós não queríamos dividir uma garrafa com eles. Fomos até um mercadinho de esquina e compramos o mais barato! Bebemos a garrafa inteira tomando doses dele puro. Super forte!

Dispensa comentários! :x
Eu já tinha bebido cerveja, agora pisco. No jantar, em um restaurante, bebi mais cerveja. Estávamos todos alegres! Era o penúltimo dia que estaríamos juntos. E no dia seguinte estaríamos em Machu Picchu, uma data importante para todos!
Após o jantar, resolvemos ir para um pub, Mirian disse que conhecia um bom. Eu já tava pra lá de Bagdá! E no caminho perdi minha money belt com todo meu dinheiro! Devia ser algo como 800 dólares! O pior é que nem percebi!
Quando chegamos ao pub, Renê e Natalia vieram me entregar a money belt. Eu fiquei perplexo! Se não fosse elas minha viagem teria sido um desastre a partir desse dia. Serei grato a elas pra sempre!
No pub, bebemos muito! Eu lembro que o dono do pub só colocava música brasileira, e que paguei uma garrafa de pisco. Lembro ainda que uma hora tomei duas doses de pisco seguidas, e nem sentia o gosto. Bem, depois disso só lembro de estar chegando no quarto do hostel graças à ajuda dos companheiros de trekking. Diz a lenda que vomitei tudo no pub! Eu posso imaginar o fiasco!
Cheguei ao hostel por volta da meia noite! Detalhe, eu teria que acordar as 04:00 hs para iniciar o último dia de trekking, a subida das escadarias até Machu Picchu!



Gastos do dia:


Almoço: $ 7,00 soles
Cervejas: ???
Pisco: ???

terça-feira, 10 de abril de 2012

Travessia Monte Crista - Morro Garuva

Desde a primeira vez que vi as fotos da Serra do Quiriri decidi que um dia eu iria conhecer aquele lugar. Ano passado fui ao Monte Crista, e observava os campos de altitude com uma enorme vontade de ir pra lá. Mas meu condicionamento físico estava péssimo na época, além de eu não ter companhia e nem um GPS para realizar esse objetivo.
Este ano, assim que voltei da grande mochilada, comprei um GPS e decidi que partiria para os campos de altitude, com ou sem companhia.
O feriado de Páscoa chegou, todos os amigos que convidei deram um motivo para não ir junto.

Dia 1 - sexta feira - 06/04/2012

Eu pretendia acordar cedo e partir 05:00 hs. Acordei tarde, pra variar. E cheguei era quase 06hs30min na Pousada Monte Crista, em Garuva. Preenchi minha ficha de inscrição, paguei os três reais e me despedi da minha mãe dizendo: "- Volto no domingo, se tudo der certo!"
Então segui para ponte pênsil para atravessar o rio e iniciar a trilha. Na metade da ponte eu escorrego, caio, e minhas pernas ficam para fora da ponte! Por muito pouco eu não caio no rio com mochila e tudo!.
Nossa! Pensei em voltar para o carro!
"Impossível um trekking ser bem sucedido iniciando assim!" [eu pensei]
Nesse primeiro trecho segui caminhando com quatro caras de Joinville, todos programadores. 
A trilha estava boa, até mesmo a saboneteira nós passamos com facilidade. Depois da clareira nós seguimos mais devagar, um deles estava muito cansado e tínhamos que parar constantemente. Em cada parada eu tomava água e dava uma beliscada numa barra de cereal e na barra de chocolate. Fiz isso para que não chegasse esgotado no platô 900, como aconteceu ano passado.
Em uma das paradas conheci um cara de Garuva que já tinha feito a travessia Monte Crista - Pico Garuva. Eu fiquei escutando ele contar morrendo de vontade de encarar essa travessia. Porém eu sabia que seria difícil encontrar alguém a fim de fazê-la neste feriado, embora dois conhecidos tivessem começado a fazê-la na noite anterior. Eu não tinha os mapas no GPS porque o cabo que comprei via internet não chegou a tempo, portanto fazer sozinho e sem mapa seria difícil e meio perigoso.
Seguimos caminhando até o primeiro platô, onde para a direita segue para o cume do Monte Crista e para a esquerda para o acampamento principal. Até esse ponto levamos 5h20min. Eu estava super bem, disposto a continuar caminhando. Tirei umas fotos com os caras de Joinville, e disse pra eles olharem a noite para as montanhas do outro lado do vale. Eu estaria em alguma delas fazendo sinal com a lanterna. Eles deram risada, meio incrédulos.
Me despedi deles e segui caminhando rumo a "Cabeluda", a cachoeira próxima ao platô 900, onde todos acampam.
Até lá não foi fácil chegar, era uma hora da tarde, o sol estava fortíssimo. Próximo ao acampamento tem uns córregos, mas não quis pegar água ali porque havia muita gente acampada perto. Como a grande maioria das pessoas que estavam lá não tomam os devidos cuidados em relação a contaminação do solo e da água, eu temia que a água estivesse contaminada. O que era bem provável.
Cheguei a parte alta do acampamento e passei meio que escondido pelo acampamento dos bombeiros. Eu tinha certeza que se olhassem eu seguindo para os campos sozinho iriam incomodar. Passando o acampamento eu liguei o GPS e marquei o primeiro ponto.
A partir desse local eu não encontraria mais ninguém. E eu sabia disso.
Sem pressa, fui caminhando e admirando a região, subi um morro mais alto que havia próximo, tinha 1100m. De lá eu consegui ver uma parte da Baía da Babitonga, o acampamento no platô 900 logo abaixo e as montanhas mais altas sentido norte.
Eu estava com pouca água, e segui caminhando pelos campos, a procura de água e um lugar para acampar. Marcando uma coordenada no GPS a cada 60 m em média.
Em determinado momento, encontro no meio da trilha um couro de cobra de um metro e vinte de comprimento. Pesquisando agora descobri que era de Jararacuçu, cobra muito venenosa! Não gostei de ter encontrado isso no meio do caminho, em alguns trechos eu tinha que usar as mãos para me apoiar nas pedras para subir, temia por a mão perto de uma cobra.
O tempo foi passando, minha cede aumentando, e eu cada vez mais cansado. Parei em um riacho quase seco para pegar água, infelizmente eu escutava a água escorrer por baixo das pedras, mas se quer consegui enxergá-la. Ouvir a água correr e não poder beber é foda! Nesse momento, ouço uma criança gritando: "- ôÔô-ôÔô" - Disse a mim mesmo, não é possível!
Então dei um berro de volta.
A criança berrou de novo: "- Vocês estão onde? Eu não vejo vocês!"
Eu não podia acreditar que tinha uma criança perdida por ali. Eu já estava muito longe do acampamento, nem se quer via mais as barracas.
Enquanto a criança continuava gritando eu fiquei olhando para as montanhas tentando avistá-la. Até que a vi no cume de uma montanha, pulando e brincando. Felizmente tinha um adulto com ela.
Resolvi continuar caminhando mais um pouco e até encontrar um pequeno vale.
Armei a barraca a 1220m de altitude, deixei tudo organizado dentro dela, e fui para o meio de um matagal de onde vinha o som da água batendo nas pedras.
O mato era alto, eu estava morrendo de medo de cobra, estava cheio de bromélias, e onde tem bromélias sempre tem cobras! Com um pouco de esforço consegui chegar ao córrego, tomei muita água e enchi meu squeeze de 500 ml. Seria o suficiente para eu cozinhar nessa primeira noite.
Aproveitei para cozinhar no fim da tarde, com o sol se pondo. Fiz um prato rápido de comida liofilizada, um risoto de arroz com frango.
Não é tudo aquilo, mas é melhor que miojo.
Com a noite chegando apareceu a lua cheia! Visão incrível! A lua saindo de trás das nuvens, que formaram um tapete. Havia alguns picos de montanhas atravessando esse tapete de nuvens. Tirei algumas fotos e fiquei deitado sob uma pedra, olhando as estrelas. O céu estava muito limpo, cheio de estrelas! Foram minutos que parece que eu nem respirava, não escutava absolutamente nada!
Agradeci a mim mesmo por ter me proporcionado tamanha felicidade nesse dia.
Então veio um nevoeiro, cobriu tudo, eu não tinha mais que 5m de visibilidade. Estando só com uma pequena lanterna, demorei a encontrar minha barraca. Quando finalmente encontrei, pensei: "Ufa! Essa foi por pouco!".
Então fiquei escutando música até dormir.

Dia 2 - sábado - 07/04/2012

Depois de uma péssima noite, levantei as 08h20min. Comi um pacote de bolachas recheadas e tomei um achocolatado de caixinha. Desarmei a barraca, organizei tudo na mochila de novo, e parti rumo a um cume de pedra de uma montanha que tinha rumo ao norte. Segui marcando as coordenadas. Encontrei água no caminho, então abasteci meu camelbak e meu squeeze. O clima pela manhã estava meio fechado. Havia visibilidade somente em algumas partes. Segui rumo ao cume da montanha, sempre de olho na altitude indicada no GPS. Quando eu estava quase chegando, avistei um cano branco com uma tampa numa pedra próximo ao cume. Cara, ganhei até um fôlego a mais! Cheguei lá em cima, abri o negócio e comecei a ler os não muitos nomes registrados de 2009 até agora. E por último estava registrado o nome de um cara com uma criança de 9 anos! Ou seja, a criança e o cara que eu tinha avistado de longe no dia anterior. Assinei meu nome, coloquei o endereço do meu blog e guardei o negócio no lugar onde estava antes.
Decidi ficar um tempo ali curtindo o visual, eu estava a 1350m e isso me alegrava, não estava com o céu completamente limpo, mas a paisagem era linda. Um ar fresco espantava de vez ou outra as insistentes butucas que me perseguiam.




Eu tinha esperança de encontrar alguém que estivesse indo para o Pico Garuva, assim eu realizaria a travessia junto. Cheguei até a avistar bem longe dois homens caminhando na direção norte, chamei eles, mas não responderam, apesar de terem me visto. Aproveitei que o tempo ainda estava bom e fui até um pequeno lago logo abaixo do cume. É um grande brejo na verdade, mas no meio há pequeno lago.
Resolvi então voltar para o Monte Crista, mesmo sem vontade. O tempo foi fechando, a neblina dominando tudo, até chegar num ponto que a visibilidade da trilha foi ficando difícil. Após uns 40 min. de caminhada, fui descer um trecho mais íngreme e me deparo com três trekkers subindo. Parei de caminhar, e quando me olharam eu disse: "- E aí galera!"
Logo uma garota respondeu: "- Glauco?!"
"-Sou a Regiane!"
Eu conhecia a Regi somente pelo Facebook, e já devíamos ter nos encontrado no Crista ano passado, o que acabou não acontecendo.
Rá! Que coincidência! Eles tinham me convidado para fazer a travessia, porém como subiriam uma noite antes que eu, acabei não seguindo com eles. E acabei encontrando-os no meio da trilha!
Com a Regi estavam a Paula (disse que lembrava de mim de algum lugar (!)) e o Renato, que eu tinha conhecido um dia atrás no grupo "Monte Crista" do Facebook.
Convidaram-me para seguir com eles rumo ao Pico Garuva, não pensei duas vezes.
Voltamos então caminhando até a Pedra do Lagarto, já com o tempo muito fechado, sendo praticamente impossível caminhar sem GPS nos metros finais. Montamos o acampamento no cume mesmo. Fazia um pouco de frio, mas o que incomodava era mesmo a neblina, que molhava a roupa.
Com as barracas montadas fizemos nosso almoço, preparei pra mim apenas dois saquinhos de sopa Vono para esquentar, e para economizar água limpei a panela com guardanapo (o que foi importante!).
A galera estava com mais fome e fizeram uns pratos mais completos, mas limparam a louça com água.
O tempo foi fechando cada vez mais, a temperatura diminuindo. Paula e Renato ficaram um tempão rondando o local em busca de uma tal caverna. Eu não tinha disposição para isso! haha
Fiquei boa parte do tempo descansando na barraca.
À noite, preparei para eu comer arroz com pedaços de filé mignon. Tudo liofilizado. Infelizmente o mignon estava horrível, comi porque não tinha opção!
Nas barracas ao lado, uma engraçada discussão para decidir quem buscaria água, que estava a 10 min. de caminhada montanha abaixo, no escuro, correndo o sério risco de se perder naquela penumbra. Eu fiquei aguardando para ver no que dava. hahaha
Sabendo do incômodo imenso que seria alguém descer para pegar água eu dei a eles o que restava da minha, que não era mais que 700 ml. Antes claro dei uns bons goles.
Tem coisas que em determinados lugares vale outro, e naquele momento minha água valia. Depois de todos terem jantado, batemos papo por um bom tempo. A Paula que estava mais quieta, porque não levou isolante térmico e estava com muito frio.
Tenho certeza que todos dormiram torcendo para que o dia seguinte nascesse ensolarado.

Dia 3 - domingo - 08/04/2012

Se não bastasse a bagunça que fiz na barraca me rolando de um lado para outro tentando ficar em cima do isolante térmico, acordo morrendo de sede e com o isolante em cima de mim. Puta que pariu, eu nunca acordo para nada! Creio que foi o maldito mignon que deve ter causado essa sede. Como eu não tinha mais água, resolvi beber o que seria para meu café da manhã. Meu último achocolatado de caixinha. Bebi devagar desejando que não acabasse mais. Sabia que no dia seguinte faria falta. Em determinado momento da noite a Paula perguntou se eu estava sonhando! Caramba, eu devia estar resmungando muito para acordar os outros com aquele vento ininterrupto!
Era 06h30min, quando a Paula chamou a Regi, logo imaginei o que era. Tínhamos a visita do sol! Que maravilha! A paisagem estava incrível! Os campos todos amarelados brilhando umedecidos. Resolvi logo desmontar meu acampamento. A galera ficou ainda curtindo o visual. Tiramos várias fotos.
Meu café da manhã foi uma barra de cereal, e um sache de carboidrato em gel. Eu tinha um miojo ainda para cozinhar, mas teria que descer para lavar a panela, pegar água, acender o fogareiro... etc.
Miojo já é ruim no almoço, no café da manhã é impensável!
Longe no horizonte víamos nuvens, ainda otimistas saímos para a caminhada final era mais ou menos 09h30min. Paramos no laguinho logo abaixo ao cume, e pegamos água. As butucas estavam insuportáveis, chegava a ficar preta a calça de tantas que estavam pousadas! (se exagero algum)
Seguimos caminhando com tranqüilidade pelo campos semi-planos do Quiriri. O problema começou próximo ao Pico Garuva. Quando chegamos a sua base, a neblina começou a dominar o vale. À medida que fomos subindo ela foi ficando mais intensa. Com muito esforço chegamos ao cume do Pico Garuva 1286m marcava no GPS. Ficamos um tempo lá em cima, esperando que abrisse uma janela. Mas não rolou, então descemos até um platô entre o P. Garuva e o Jurema. E quem disse que achávamos a trilha?! Sobe e desce, anda para um lado e para outro e nada! Renato que já esteve no local deixou a mochila e procurou até encontrar! Foram 30 minutos perdidos!
A trilha a partir dali seria de descida, pela mata fechada. E muito fechada! Parecia que fazia muito tempo que alguém não tinha passado por ali. Quando chegamos a 1000m de altitude, no acampamento que dá vista para o Garuva e o Jurema, começou a trovoada.
Começamos a caminhar mais rápido, mas o desnível da trilha é elevado, há diversos lugares onde é necessário escalaminhar. Os tombos e escorregões foram ficando cada vez mais freqüentes. Meus joelhos estavam destruídos! Com a roupa e a mochila molhada o peso aumentou significativamente e só piorou a situação. A partir desse momento eu não olhei mais para o GPS. Seguimos mais algumas horas descendo a montanha nessa situação. Todos cansados, com fome e encharcados!
Quando finalmente chegamos a um vilarejo, já era quase 15h00min! Apareceu então uma caminhoneta F-1000. Um olhou para o outro com cara de "eu quero carona".
Eu não perco uma oportunidade dessas, fui logo comprimento o senhor que dirigia ela e pedi quanto cobraria para levar nós quatro até a pousada Monte Crista. Ele muito simpático e humilde, disse que por DEZ REAIS nos levaria. Estávamos sujos e molhados!
Sem dar tempo para ele mudar de idéia, jogamos as mochilas na carroceria da caminhoneta entramos os quatro na cabine. Com o Sr. Valdir éramos em 5 na cabine!
Às três horas em ponto chegamos à BR-101. Dez minutos depois chegamos ao estacionamento da Pousada Monte Crista. Cada um deu uns trocados para o Sr. Valdir, que ainda não acreditava o trajeto que tínhamos feito caminhando. Ele disse que mesmo tendo sido caçador por muitos anos, nunca tinha caminhado por todos aqueles lugares que passamos. São poucos, mas ainda há brasileiros bons como este cara!
Enquanto depositávamos nossas tralhas encharcadas ao lado do posto de controle, vejo meu pai no estacionamento. Despedi-me da galera e segui pra casa com a maior vontade do mundo de tomar um banho quente e comer um enorme prato de comida!
Enfim, mais um sonho realizado!

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Obs.: Por mais que pareça uma aventura sem grandes perigos, a maioria que lê relatos como esse considera a coragem como um dos fatores mais importantes. Importante lembrar que é preciso saber avaliar os riscos que estarão submetidos, é preciso equipamentos técnicos, é preciso saber se orientar em locais remotos e acima tudo, saber superar os perrengues com bom humor!

Valeu a companhia de todos os parceiros dessa travessia, especialmente a Regiane Richartz, a Paula Medeiros e ao Renato Torres Pereira! Que grupo formamos, não?!